Livro: Os Malaquias - Andréa Del Fuego


'Não me sinto escritora, os livros vão acontecendo', diz Andréa Del Fuego.

Desta forma, com uma simplicidade cativante, a escritora vencedora do Prêmio José Saramago 2011 fala sobre seu ofício, um dom. A escrita é uma necessidade na vida de Andréa Del Fuego. A autora nascida em São Paulo, em 1975, conta que inicialmente utilizava deste recurso para fazer chantagem emocional com sua mãe e interagir com a família em Minas Gerais. Assim, ao invés que fazer ligações e perguntar por todos os familiares, que eram muitos, preferia escrever cartas para a família e até mesmo inventava notícias.
O livro 'Os Malaquias' da editora Língua Geral é primeiro romance de Andréa. Na obra, a autora resgata a história de sua família, narrando a memória de seus antepassados de um modo ficcional. O desenrolar da narrativa acontece em Serra Morena, região de Minas Gerais. Uma região que cultua o silêncio dos fatos, transformando as memórias em um mundo obscuro e misterioso. A vontade de escrever surge após a morte de sua avó, a qual a trouxe a vitalidade da escrita, o renascer da palavra.
Utilizando do realismo mágico pessoal e da prosa poética, a intenção da escritora era se distanciar das emoções familiares não ditas. Esta mistura de realidade com ficção faz a autora reavivar a recordação de seus bisavós e familiares. Quando questionado o quanto podemos fazer de ficção dentro da própria história, Andréa diz que tudo é memória, porque até mesmo a invenção está dentro de nós, é parte do que sentimos. Surge, então, ‘Os Malaquias’.
O romance levou sete anos para ser finalizado. Uma das pausas que explica isto é história do Sr Ita. Conta a escritora que o Sr Ita, homem místico, cara do Tim Maia, era o benzedor da família. Andréa foi até o místico buscando saber se tinha autorização para escrever sobre sua família. A resposta surgiu da própria escritora que logo pensou 'a narrativa é da minha família, da minha vida. Sim, posso fazer isto!'. O Sr Ita concordou, porém alertou-a de que havia começado o projeto muito cedo, ainda não estava no momento certo. Assim, Andréa preferiu esperar a maturidade, pensou estar mais preparada quando tivesse uns 50 a 60 anos. A autora confessou que tinha dúvidas quanto a sua capacidade de escrita. Era apaixonada pela ideia de ser escritora, mas dizia 'não sou'. 
Felizmente, a narrativa foi finalizada e com o auxílio do editor Eduardo Coelho o projeto virou algo concreto.  Com isto, a escritora salienta a importância da editoração. Conta que a leitura atenta com um foco profissional e crítico era o que ela procurava, 'alguém que colocasse a ‘mão na massa’ e trabalhasse no livro com seriedade, fazendo as alterações necessárias'.
Abaixo estão algumas perguntas feitas para Andréa Del Fuego e respondidas com muita simpatia, atenção e doçura. Informo que em breve postarei a minha visão sobre a leitura do livro.

Já pensou em tornar ‘Os Malaquias’ em uma minissérie ou algo do tipo?
Andréa – Sim. Já recebi o convite para fazer o roteiro da obra, mas ainda é algo distante.

Neste período da escrita do livro, você foi até o lugar, até a casa em que tudo começou?
Andréa - Sim. Todavia, a região onde a casa foi construída hoje está toda alagada devido à construção da represa de Furnas. E isto é muito inspirador, pois os corpos que ali estavam hoje são partículas de água finalizando na luz de uma lâmpada na casa de alguém.

O que considera mais desafiador escrever: obras para adultos ou infanto-juvenis?
Andréa – Considero os livros para adultos muito mais desafiadores e cansativos. É um jogo de dados ao acaso porque é o tempo em que estou vivendo, é o meu tempo atual de vida com conflitos. Você passa horas exaustivas escrevendo sem saber se terá retorno, sem a segurança de que o livro será aceito pelo público. Já escrever para os jovens é algo muito prazeroso. Eles possuem aquela segurança enorme, aquele jeito de vida de acharem que vão dar conta de tudo e poderem carregar o mundo. Escrever livros infanto-juvenis é como tirar férias da escrita. 

Você tem alguma técnica de escrita? Já sentiu algum vazio em que não tivesse nenhuma ideia sobre o que escrever?
Andréa – Quando escrevia contos, gostava de escutar uma música por diversas vezes. Era como um mantra, uma trilha sonora que me fazia flutuar no ato de escrever. Também, gostava de tomar vinho e ouvir música bem alta e sair escrevendo, mas acho que isto não é uma técnica. Cada um tem a sua. Quanto ao vazio, nunca tive. Sempre olho ao meu redor e parece que tem um narrador falando comigo o tempo todo. O ideal é deixar a escrita fluir, sem pensar na técnica. Derramar os pensamentos no papel, sem perder as pérolas que podem surgir. Escrever e escrever.

Você considera úteis as oficinas de escrita?
Andréa – Sim. É como uma transfusão de coragem. É contagioso encontrar quem transmita o prazer da escrita.

Você consegue viver de literatura?
Andréa – Sim. Após receber o Prêmio José Saramago 2011 a minha renda passou a ser da venda dos livros e direitos autorais, sendo que o livro já está disponível em alguns países, como a Alemanha, Argentina, Israel e Itália.


Livro: Os Malaquias
Autora: Andréa Del Fuego
Editora: Língua Geral Livros Ltda, RJ

Informações sobre o evento:
SESC Vila Mariana
Gravação do programa Sempre Um Papo com Paula Rangel
24 de julho de 2012

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