Projeto Grandes Artistas: Marcelo Jeneci



O espaço Revista Cult é um daqueles lugares encantadores. Paredes branquinhas. Almofadas no chão. Livros. Música ambiente tocada por uma vitrola e discos de vinil. Algumas plantas enfeitando a área externa que acompanham as mesas para tomar um cafezinho. Gente bonita com ar intelectual. Frase filosófica estampada na parede. Tudo organizado, uma sintonia Cult.
E neste clima convidativo estávamos esperando Marcelo Jeneci. O evento estava marcado para as 20h. Alguns minutos antes o artista chegou. Marcus Preto entrevistador, crítico musical e jornalista da Folha de S.Paulo, iniciou o evento. Começara a 5° edição do Projeto Grandes Artistas da Revista Cult.
Começo descrevendo Marcus Preto. Postura de comunicador, inquieto e atento a cada resposta recebida. Algumas vezes debruçava-se sobre a mesa, virava um pouco a cadeira dando as costas para os participantes para tentar absorver cada detalhe que pudesse saciar o seu ofício jornalístico. Conduziu maravilhosamente bem a entrevista com um toque de humor e perguntas curiosas que dessem para encher o paladar sedento dos fãs do artista.
Marcelo Jeneci, nascido em São Paulo, em abril de 1982, nos prestigiou com um bate-papo agradabilíssimo. A forma de falar, de se expressar, de explicar como tudo começou e mostrar seu lado humano fazia com que nos sentíssemos em casa, deitados no sofá e comendo salgadinho ao lado de um grande amigo.
Tudo começou com seu pai, Sr Manuel, o ‘verdadeiro Jeneci’. Sr Manuel tinha uma loja que consertava instrumentos e o Marcelo, para entreter os clientes na sala de espera, tocava algumas músicas brincando com os artistas que geralmente frequentavam a sua casa. Daí surgiu o convite, o início de uma grande carreira que já dura uma década.
Entre outros assuntos, Marcelo Jeneci falou sobre alguns de seus clipes, o início de sua carreira como compositor, os grandes parceiros e guias que acumulou ao longo de sua carreira, as suas referências de vida, a maturidade, o sucesso, o vazio e muitos outros temas que marcaram seu caminho e o fizeram ser multi-instrumentista, compositor e cantor acompanhado por alguns dos principais nomes da música popular brasileira, como por exemplo, Arnaldo Antunes, Vanessa da Mata, Zé Miguel, Erasmo Carlos e muitos outros.

Clipes: Felicidade e Pra Sonhar
Marcelo Jeneci conta que se envolveu muito mais com o clipe da música Felicidade por ter sido gravado na cidade dos avós, no agreste Pernambucano. Neste trabalho a memória da infância e a lembrança de seus familiares revigorou no artista o sentimento da vida como ela é. Marcelo explica que sua dedicação está em cada detalhe deste trabalho. O trecho da música a seguir exemplifica com grande maestria todo este sentimento: ‘Você vai rir, sem perceber, felicidade é só questão de ser’. Lembrando que a música fez parte da trilha sonora da novela global ‘Aquele Beijo’, em 2011.
Pra Sonhar foi um clipe feito por casais homenageando o artista. A música foi tão bem aceita que as pessoas que a ouviam enviavam trechos dos seus próprios casamentos tendo a música como trilha sonora e, também, os fragmentos da letra da música estavam transcritos nos convites de casamento. Desta forma, junto com a produtora Recheio, foi criado um clipe com retalhos enviados pelos fãs. Luciana, fã do artista descreveu sua sensação ao ver o clipe ‘Tudo casa. A letra, a vontade de tudo acontecer realmente. Adorei!’.

Começo como compositor
Marcelo Jeneci confessa que o início de sua carreira foi ‘no empurrão’. Desde muito cedo já sabia tocar alguns instrumentos e foi através de um convite de Chico César que tudo começou. Frequentador da oficina de seu pai, Chico César, após Mama África, precisava de alguém que tocasse piano e sanfona. Apesar de Marcelo ainda não conduzir muito bem a sanfona, colheu algumas dicas e se empenhou profundamente neste projeto.
Marcelo conta que decidiu viver de música e deixar um pouco o seu lado instrumentista, mas não sabia como. Achava que o máximo que conseguiria era tocar piano nas praças de alimentação dos shoppings.
Conversou com algumas pessoas que o encorajaram e mostraram exatamente onde deveria ir, dentre essas pessoas estavam Arnaldo Antunes, Vanessa da Mata, Chico César.
O sentimento incentivador de Marcelo era ouvir sua música na voz dos artistas. Fazer boa música, trazer um componente de sedução poderosa de alcance popular e deixar suas composições migrar pelas vozes dos grandes cantores, como aconteceu com a música Amado, grande sucesso da cantora Vanessa da Mata.
Quando questionado sobre qual o impacto que teve esta composição na sua carreira, Marcelo explica que não ganhou tanto dinheiro com a música Amado, porém foi uma referência para as pessoas saberem qual era o seu trabalho. Era um ponto de partida onde poderia conversar com os amigos tanto em uma mesa de bar quanto em um release de imprensa.
Amado clareou sua busca de viver de música. E neste momento, Marcelo Jeneci conseguia enxergar, o que até então, era somente intuição. Acreditou, ‘é possível!’.

Referências
Confirmando o lado familiar do artista, duas pessoas ocupam sua  lista de referências: sua mãe Glória, paulista e evangélica fervorosa, e seu pai Manuel, pernambucano, o ‘verdadeiro Jeneci’.
Marcelo conta que seus pais iniciaram a paquera com as músicas de Roberto Carlos. O Sr Manuel cantava as músicas românticas para a amada, entregando-lhe flores. Nesta trilha sonora cheia de sentimentos e músicas melosas nasceu Marcelo Jeneci.

Primeiro disco comprado
‘Na verdade não me lembro. Apesar de ser músico não era fissurado em música’, confessa Marcelo.
Depois, tentando reavivar a memória, lembrou-se de algumas bandas como Raimundos e Titãs. Também gostava de ouvir pagode como Negritude Junior, Raça Negra, Grupo Katinguelê. Aliás, antes de sua carreira deslanchar, Marcelo Jeneci, compartilha que já fez parte de uma banda de pagode e que tem vontade de gravar a música ‘Recado à minha Amanda’ do Grupo Katinguelê. O cantor até nos prestigiou cantando um pedaço da música ‘Fala prá ela/Que sem ela eu não vivo/Viver sem ela/É o meu pior castigo’.

Fase de adaptação para a vida de famoso
Criado em um ambiente religioso, Marcelo Jeneci estava acostumado com a presença de um guia, alguém que dissesse qual era o caminho correto para seguir, que o orientasse em seus passos.
No universo artístico o primeiro guia de Jeneci foi o músico Swami, seguido por Zé Miguel e depois por Luiz Tatit. O intuito era conhecer o mundo da música de uma maneira mais profissional, um modo mais abrangente e poético, diferente da música popular já conhecida por Jeneci. A vontade que possuía era de conseguir manter essa versatilidade.
Atualmente, o cantor diz não ter mais a necessidade de um guia. ‘Não sou mais café com leite’, brinca o artista. Após fazer 30 anos, a percepção de mundo é completamente diferente e, após o lançamento do primeiro disco sua maturidade está mais rígida.
Foi durante o show ocorrido em Fortaleza, em outubro de 2011, que o sucesso apontou para Marcelo. No evento, algumas fãs choravam com as letras das músicas, pessoas estavam tatuadas, haviam cravado na carne algo que era produto de seu trabalho como compositor. Vendo todo este cenário, Marcelo Jeneci logo percebeu que o sucesso batera em sua porta: ‘Fiquei assustado, percebi que era sério. As coisas estavam acontecendo!’
Aliás, com mais de 140 shows, sua preocupação está na produção do segundo disco e confessa que a exigência com ele mesmo aumentou. O primeiro disco foi tão bem feito e aceito que o grande desafio é superá-lo.

Estilo musical
Melodias tranquilas, letras carregadas de sentimentos e tom de voz que emociona. O objetivo musical de Jeneci é compor e cantar músicas que sirvam para acalmar, canções que duram no tempo e tocam no coração.
Construir grandes canções com a junção de sua vocação popular e instrumentista mais as influências musicais como Roberto Carlos, Paul McCartney, Erasmo Carlos é o resultado de músicas bonitas, leves e duráveis.
E o desabrochar da maturidade esboça uma nova forma de Jeneci. Longe de ser algo como ‘fofo’ ou ‘so cute’, palavras que não cabem no vocabulário do compositor, a mensagem do seu trabalho é conseguir uma sonoridade cativante que perdure no tempo.

Laura Lavieri
Laura possui uma voz pura. Lembra aquela voz do amigo como um recado dado por anjos. Paulistana, é a voz feminina que acompanha o cantor em seus shows. Uma grande amiga e parceira.
A amizade entre o cantor e Laura começou por intermédio do pai dela, o seu amigo Sr Rodrigo Rodrigues. A menina tinha apenas treze anos quando se conheceram. Ela era ainda uma criança quando chamou a atenção do cantor.
Porém, após alguns anos e dado a uma grande fatalidade, o pai da moça faleceu. E Laura, com dezesseis anos, faz uma homenagem ao pai com uma bela canção. Marcelo ouvindo sua voz convidou-a para fazer uma parceria, compor e cantar algumas músicas juntos.
Muito preciosa para o cantor, Laura Lavieri, possui o tom de ’voz perfeito, uma sonoridade que me dá uma satisfação muito grande’, diz Marcelo com muita admiração.

___
Foram duas horas de conversa com o artista. Neste bate-papo deu para notar que além de compositor, cantor e instrumentista, Marcelo Jeneci tem um lado humano e simples que contagia.
Com uma maneira particular de se expressar, Marcelo Jeneci combinou as meias e a camiseta, ambas listradas e azuis. Todavia, mais do que a imagem de ser famoso ou querer chamar a atenção dos paparazzi, o desafio do artista é mostrar seu trabalho, ser lembrado como um trabalhador da música, alguém que faz composições bonitas, significativas e serenas.
E por fim, Marcelo Jeneci compartilhou seu pedido a Deus para que o mantenha até quando tiver algo para fazer, desta forma, sempre busca novos desafios. Ansiando superar cada trabalho. Sentindo sua música. Desfrutando cada palavra.


 Clipe Pra Sonhar



Informações sobre o evento:
Espaço Revista Cult. Projeto Grandes Artistas.
Vila Madalena
26 de julho de 2012


Nenhum comentário: